terça-feira, 29 de outubro de 2013

CARTAZ




O Sol invade dentro da noite cerrada
no silêncio o calor imenso sufocante
na tv do quarto imagens embaralhadas
num cenário desarmado
em mau contato
formigas e moscas tontas
em favas abelhudas
se cobrem de livres melindres
dos vasos secos
pálidos
e se debulham
em fragmentos ásperos 
e se coçam
acasalados 
streptococus 
sobem 
pelas pernas 
ferozes blocos
em bacanais
se abrindo em erisipelas alérgicas
sedentos pra subir
em sangrias desatadas
(um rastro vermelho inflama
a área) se fustigam
de olhos semiabertos 
o sono cansado e assanhado 
com as crias bacterianas
virulento pensa e arrisca:
- Cantil mágico
anilado e neurótico
por que não esgotas
no colapso do grande ponto
o derrame na pausa branca?
- É PROIBIDO AZULAR EM PAZ -

Marlene Vieira Perez - MPerez
em 19/10/13

domingo, 27 de outubro de 2013

FELIPE


Esquivo desconhecido
um símbolo
de capa-espada
se anuncia 
um príncipe chega
um homem entra de cisne
um gatinho disfarça em miados
seu charme de macho

par - a - béns - pra - vo - cê!

Felipe sorrindo
na foto inocente
parado no tempo
distante perdido
um estranho menino?

par - a - béns - pra - vo - cê!

O cromo foge e chega
eu não vejo
levanta a tocha
comemora a vitória
no encanto um raio de luz
se expande
e se revela no sangue
antecedentes em silêncio
latejam 
risos
no olhar quente

par - a - béns - pra - vo - cê!

Abre-se o bate-palmas
que eu quero passar
e no abre alas
a geração inteira da vovozinha desfila
uma bruxinha espavorida se atira 
e anônima acompanha a banda
suspirando de alma lavada

par - a - béns - pra - vo - cê!

Uma caveirinha sorri com todos os dentes
finalmente esbelta 
e eleita 
a mais bela soprano
dança e canta ao clarão da lua
aos acordes de um violino cigano
e do sibilar do vento
se não me engano
a Ave Maria de Schubert

par - a - béns - pra - vo - cê!

uma aragem entra invisível numa festa
digna e livre se projeta
e desaparece entre
as estrelas da Terra

par - a - béns - pra - vo - cê!

volta um silêncio de morrer
para você viver
um porta-retratos se aposenta
uma figura viva e virtual 
entra 
na parede traços 
jeans desbotados
de um menino
e num lixeiro escondido
as cinzas de um cromo muito antigo
denunciam fogo de palha
e a fumaça passa
e no rastro um homem formado

par - a - béns - pra - vo - cê!

Marlene Vieira Perez - MPerez
em 20/10/2003 - Fpolis - SC - Brasil

Homenagem ao meu neto Felipe Tibúrcio Alves Vieira Perez 
aos 13 anos de idade no dia do seu aniversário.
Só publicado hoje dia 25/10/13 para comemorar seus 23 anos de idade.
Rio das Ostras - RJ

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Mulheres de Atenas: sexo discreto ou reprimido?



          Quando Roberto Pompeu de Toledo tinha semanalmente a última
página na Veja (e a revista era de excelente qualidade naquela
época), nem sequer sabia que era por ela que eu começava a minha
leitura.
Naquele tempo eu não tinha computador e provavelmente ele
escrevia a maquina.
Depois de ler a coluna “Ponto de Vista”, eu começava a percorrer
a revista de modo menos oriental: lia de frente para trás,
como todo mundo!
Embora já vivesse em Paris, era pela publicação que me inteirava
do que ia acontecendo por aqui; até mesmo da reforma dos
Champs Elysées eu soube via Brasil!
Um dia fiquei boquiaberta com a sua crônica falando sobre
umas senhoras paulistas residentes em Santana; pensei, remexi, refleti,
pensei de novo, repensei e ensaiei umas linhas que jamais lhe
enviei, inclusive porque demoraria um mês para que minha carta
chegasse ao Brasil.
Internet? Neca de biribiteca...
Guardei aquelas linhas para um senhor tão especial e, remexendo
no fundo do meu baú, encontrei-as intactas; como uma obsessiva,
releio tudo que encontro, pois se foi guardado é porque
tem serventia. E não é que tem mesmo?

Quase trinta anos se passaram e eu me pergunto se as senhoras
de Santana que se manifestaram em São Paulo pela censura na
TV, especificamente sobre as cenas de sexo nas novelas, são avós
prafrentex ou ainda continuam com as ideias paradas?
É verdade que, num país democrático, pedir adesões para uma
campanha de moralização dos costumes denota que a liberdade de
expressão existe (para esse caso); mas o trágico é saber que um
grupo pode dela se favorecer para justamente acabar com essa
mesma liberdade.
Analisando friamente a situação das mulheres que pertencem
ao que sobrou da classe média urbana brasileira, pode-se prever
que elas mesmas serão capazes de enterrar definitivamente os esforços
que as mulheres conscientizadas do mundo ocidental tentam
fazer em prol da sua emancipação.
Saídas de Santana, Botafogo ou Amaralina, pouco importa,
quando na realidade são exatamente aquelas mulheres que contribuem
a cada dia para o alargamento de uma sociedade machista e
reacionária.
Num país onde eles, tirando a mãe – uma santa –, a irmã, uma
virgem, e a esposa, uma freira, todas as demais mulheres não prestam
e bem merecem ser comidas pelos mais variados tipos de machos
colocados à disposição no mercado.
Não é de estranhar que mais de 100 mil pessoas, provavelmente
a mulher do dentista, do médico ou do engenheiro estejam
estimuladas para cortar a cena do beijo, do estupro ou da masturbação
que aparece na novela. Por que, então, não mutilar os filmes?
Por exemplo, todos os do Fellini, rasgar os romances, contos e artigos
especializados em erotismo ou sexologia, cobrir de luto as
telas dos nus de Modigliani, botar sutiã na Vênus?

Por que não colocar os livros do Reich na fogueira inquisitorial?
Por que não questionar Freud? Por que não exorcizar Lacan?
Simples: por desconhecimento.
Se foram à escola, o que estudaram? Estiveram no curso normal
dos anos 50, nas aulas de economia doméstica restrita às receitas
de comidas e de tricot?
Sua grande emancipação teria sido pular da fogueira draconiana
dos pais opressores e irmãos vigilantes para o fogo infernal
do casamento, que durará até que a casa caia, sem alguma reflexão,
atuação ou escolha?
Quando lhes vêm uma sexóloga que lhes abre as portas elas
lhe viram a cara para não terem de olhar no fundo dos seus próprios
problemas a fim de solucioná-los um dia.
Gostaria de saber se houve 100 mil orgasmos, ou, para ficar
menos chocante, pelo menos um orgasmo por mulher, daquelas
que assinaram a lista.
Gostaria de saber qual poder de decisão cabe a elas no reino
doméstico, além da eventual compra da abobrinha e da bronca na
empregada.
Gostaria de saber quantos de seus filhos, por não terem sido
encaminhados para coisa melhor na vida, preferem os traseiros
em grande angular que as revistas especializadas oferecem, para
que eles, na sua incapacidade de análise gerada na criação que
tiveram, se satisfaçam de maneira doentia num voyerisme sem
precedentes.
Gostaria de saber se as mães deles chamam e são chamadas
para o ato com prazer, e se o consideram saudável?
Gostaria de saber se seus maridos não preferem secretamente
dormir com a secretária.

Gostaria de saber quantas trabalham, por que e se gostam do
que fazem.
Gostaria, enfim, de saber se elas desejam para as suas filhas a
perpetuação da opressão, se desejam maridos franco-atiradores (lato
e estrito senso) e cada vez menos vez na sociedade que elas mesmas
alicerçaram com a orientação, é claro!, de seus eternos patrões,
os homens.
Por isso, reivindicar a CENSURA é anular todo o processo de
libertação que os outros nos abrem; não é participar positivamente,
mas enterrar a sociedade e condená-la a um obscurantismo de inspiração
medieval com apenas 500 anos de atraso.
O que desejar a essas mulheres de Atenas?
Ora, que aproveitem a deixa da onda pseudodemocrática para
tomar uma posição libertária: durante o horário nobre, que desliguem
a TV e abram um livro; assim, no dia seguinte, ao invés de
discutirem o happy end da novela, marchem para um happy end
de seus próprios destinos.
Roberto, desculpe-me por não lhe ter enviado esta crônica na
hora certa.
Leitor, desculpe-me se saí da linha e deixei entrelinhas chocantes;

afinal, sou uma senhorinha bem mal comportada!

Wilma Schiesari Legris in CRÔNICAS E CONTOS CRUÉIS

terça-feira, 1 de outubro de 2013

GARGALHADA DE FILHO





  


Gargalhada de filho
estribilho
a perpetuar a espécie
verso aberto
musa ou prece
na partitura em estilhaço
se cala
na multidão
se perde
nos fogos de artifício
convive na surdina
como trégua de guerra santa
a dúvida e a incógnita perseguem
o bilu-bilu da coruja às escondidas
E o quebranto arca caída olho grande
Todos curados pelo raio?



Avemariiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiaah



Uma grave gargalhada sacode
fecha os olhos
muda o embalo
cuidado!
O filho está grande e se ofende fácil
Agora a gargalhada
se confunde
na implosão da rocha sem garimpo
do tesouro
a descoberta gloriosa é um perigo
da primeira e profana gargalhada de um filho



Ahnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn




De uma só parábola
traduz milhões de páginas
de improviso
revela a cara etiqueta do avesso
às claras na correnteza
com exclusividade publicada sem medo
é de morrer por ela em pesadelos
pra viver em sonhos aprisionados
cada vez mais rápidos e fugazes
dentro da enigmática saudade







Avemariiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaa






Nos acordes místicos da gargalhada única
de um filho homem
convivem e vibram em harmonia
o protesto e os aplausos
e ironicamente agradam
ainda que sejam cínicos




haaannnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnnn




É a peça mais dramática
a sátira mais sábia
em permanente estréia
doce e acre
como batizado em atraso
na amarga ausência do padre

Em pleno mar nervoso
a gargalhada sangüínea
deságua na onda
desarma
e se dissolve 
do vermelho ao rosa
a imagem
canta suave e mansa
como a rainha do povo
em dia de oferenda
e de repente renasce manchada
espanta e assusta
num berro de homem ou demônio





uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu



Do oceano ou do poço
a gargalhada do filho
se levanta e se expande
no eco mais impressionante e belo
das igrejas barrocas
abafada pelo manto austero
de todos os santos
domina as feras
cega
acusa e perdoa
os monstros
durante a quaresma





avemariiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiaaaaaaaaaaa



E do mais íntimo
aflora e se exala
bóia selvagem e morna
nas águas do exílio
e por cima de lágrimas e cacos poluídos
não perde a coragem
a gargalhada do querido filho


é fogo competindo
pra salvar as brasas
é ciência incrível e simples
como luz antes do grito
ressoa no escuro
raio estrelas diabo a quatro
a sacudir os sentidos que alívio
nasceu nasceu é um menino!


AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAAHA




Religiosamente
há muitos anos
pasmo ao som desta gargalhada estranha
a confundir meio mundo
tão minha nossa próxima mundana
às Marias condenadas e devassas
eu levanto a taça e brindo
a primeira ou a última
gargalhada de um filho




kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk




Marlene Vieira Perez - MPerez
Designer - Doug B.
Florianópolis, 16/11/89

terça-feira, 24 de setembro de 2013

CONTINHO DO VIGÁRIO




I - EXALTAÇÃO – ESTÍMULO -- AQUECIMENTO:

Parabéns! Liberdade condicional, hein?! Férias à vista, compras a prazo. Novidade. Movimento. Compromissos múltiplos sem horário. Presente. Dinamismo. Fuga da inércia depressiva de trabalhar 1,2,3 períodos por dia. Vida por dentro e não por fora. Gozo do in e não do ex. Liberdade de condução. Direção própria. Autonomia. Trânsito livre por helicóptero. Uma trégua da burocracia, da pesquisa, da ré-visão, do continho de professora. Da poesia evasiva. É a vez do poema práxis, pragmático de Piaget  Aqui e agora, vamos colocá-lo em prática, minha filha, e atrasada. Não se esqueça da teoria-lei 5.692/71. Mãos a obra, de portas e janelas abertas. Higiene completa. Ciência esperta, profilática, experiência: curiosa descoberta no habitat. Descanso visual. Abandono total das lentes muletas da intelectual, hein? Terapia da miopia: o Tudo-Fim-de-Mundo, um nada embaralhado. A sua entrada apoteótica impressionista, um Quadro de Artista, i-n-mundinho-ninho desfeito pelas cobras da Ave-Eva-Moderna-Expressa. Um milagre de Cristo, a volta por cima do paraíso perdido, o Reinício do feito. Quebra da rotina. O clímax dos achados alarmantes, um calmante; das permutas absurdas, um motivo de orgulho da boneca prendada, que comprova a sua audácia e temeridade.
A sua presença indispensável! A vitória da Fúria! Brilho da Estrela-única! Panorama-dama da organização dramática! Dona das regras, produtora, contra quebras. Luz simétrica. Musa-métrica do método. Seqüência lógica, viva, comédia lírica. Censura lúcida da infração inflacionária! Descoberta inédita de peças engavetadas! Publicação de todos os artigos perdidos! Aproveitamento do espaço, propriedade! Anúncios magnéticos. Controle e segurança! De-cor-a-ção automática: Botão em casas. Espécies separadas, reunidas pela varinha mágica da Fada! Segredo perfumado da economia doméstica em revista Ela! Harmonia perfeita. Ambiente e gente em ambiência poética. Democracia entre sexos: recreio colorido masculino: desenho animado, Os Trapalhões, O Planeta dos Homens, O Fantástico e Esporte Espetacular no sofá X ginástica rítmica feminina contínua. Sauna gratuita, entre na linha, entre filha, a casa é sua! Não tenha dúvida! Está apenas desapontada de emoção, de saudade. Esteve sempre de ponta-a-cabeça praticando yoga, para suportar a sua ausência. E não saiu da posição com o propósito barroco de recepcionar a sua chegada com a inversão clássica, enigmática da charada acrobática. Não seja ingrata. A intenção é válida: convite ao jogo da paciência repousante depois de um fim de ano pesado. Tudo de leve, descoberta de figuras desfiguradas, de sujeitos e objetos, de chaves por perífrases, antíteses e anástrofes catastróficas. Análise, menina, sem psicólogo monótono. Paradoxos para matar o seu tempo, estimular o seu potencial artístico, denso, pela catarse da participação ativa: única oportunidade de chegar ao significado pelo insignificante de simples imagens complexas, indecifráveis, surpreendentes. Mas não se surpreenda. Todos os excessos são pródigos, filantrópicos, próprios da indecisão de anfitriã rica, exagerada, que só deseja agradar. Esperava ansiosa pela Vedete da festa para decidir, ficar de pé. Virar, mudar de estilo, dar meia volta, esportivamente. Espetáculo à moderna. Vamos, troque de roupa: rancheira sem perder a classe. Um toque de romantismo: malhinha nostálgica decotada, lenço colorido nos cabelos à espanhola, avental bordado com rendinhas à holandesa e chinelo de dedo à havaiana, pretinho do avesso, Cocotinha! Você está uma princesa versátil. Remoçou 10 anos, nem sombra da Rainha do Lar, doce lar. Aprovada, pronto! Como aluna radiante, voluntária que volta ao lar paterno com um projeto: Rondon. De mala a tiracolo para os primeiros socorros. Vamos começar com o 1º ato de caridade? Calminha, devagar. São muitas peças e tomadas de cena, figurantes, cenário imenso, flora e fauna reunidas e amigas.. Desmanchou o rococó? Ótimo. Parta para o arcadismo. Arcará com tudo e se sentirá útil pastora, depois romântica. Reagirá ao mal do século e dará uma de positivista, naturalmente. Macaca autêntica. Em seguida um símbolo de gente, subirá até nas paredes e em uma semana inaugurará o modernismo, cantarão todos os eletro-domésticos. Publicará seu dada-ísmo. Finalmente tudo entrará nos eixos. Suada, surrada, voará surrealista e de Asa-delta da nuvem embaçada e cairá vesga, antropófaga para enfrentar fevereiro existencialista à espera do seu cargo famigerado de professora idealista, efetivamente refeita, segura, uma nova Eva, anjo de mestra, envergando lunetas e uniforme branco. Tudo, porém, depende de você, Martírios!
Disseram-lhe: Vá, Martírios, e não dê notícias. E se apresente em 77 para acertos de contas. Leve consigo os mandamentos. Decore-os e pratique-os.


II – Mandamentos:

Vida ao ar livre mesmo poluído. Pensamentos sadios. Faça faxina na sua casa: terapia. Desinfete tudo, extermine as baratas, as pulgas, as moscas. Livre-se de todos os vermes. Lave o cachorro e o gato com xampu de cachorro para gato e sabonete de gato para cachorro, última descoberta de bricolagem. Com cuidado para não tratar o cachorro de gato e vice-versa. Não se esqueça da biblioteca: livro por livro, todos sacudidos de um quilo de asfalto e esterilizados e agrupados por assunto, autor e etc, com muita estética. Limpe a lataria do museu com Silvo. Vai ficar aquela prataria que enganará todos. Lave todas as cortinas com Omo, pendure sozinha, ótimo para a linha. Carregue os tapetes para fora. Não pode? Muito pesado? Não se preocupe, o Espírito Santo lhe dará uma mãozinha. Bata com paciência e energia, feche os olhos, esqueça os cabelos, você ficará misteriosa de cinza, irreconhecível. Deixe no sol, porém olhe o céu. Ao primeiro pingo, carregue tudo para dentro rapidamente para evitar o mofo e passe o aspirador, removedor nos mais velhos, vinagre nos novos e enrole.
Comece a limpar os vidros com água e sabão e depois álcool para dar brilho. Tudo por dentro e por fora. E não se esqueça do jornal para tirar os pelos e as manchas gordurosas. Trepe na janela. Use calça comprida e escada, vire macaca. Não se esqueça do chão, precisa refletir você, linda de morrer, lá no seu devido lugar. Varra tudo primeiro. Se for alérgica à poeira, tussa à vontade e limpe o nariz no avental muito limpinho, afinal não tem ninguém em casa. Todos estão trabalhando e estudando. Só você de férias. Continue no chão. Passe removedor e cera Powask e depois, naturalmente, a enceradeira. Não desanime, não escorregue, agora ficou mais leve. O milagre é da energia elétrica, afinal, você ainda é feliz por ter enceradeira, obra do Espírito Santo e depois são só quatro quartos, um salão, dois banheiros e uma copa-cozinha. Não é nenhum palácio e você, nenhuma Cinderela para ter escrúpulos de ser gata borralheira no seu próprio ninho. E deixemos de filosofia, vamos encerar a cozinha, mas antes limpe todos os armários embutidos por dentro e por fora com benzina. É claro, depois de retirar tudo e lavar muito a louça não usada para remover as crostas amarelas do tempo. Você pensa que o seu exaustor é de ferro, tem nariz de frigideira? Coitado! Você precisa ajudá-lo. Não vá cometer a asneira de esquecer dos azulejos até o teto. Voltam a escada, o jeans, muito bombril e água. Orgulhe-se! Não é qualquer um que possui azulejos até o teto, muito chique.             
Limpe todas as paredes com aquele produto americano que você comprou na sua vizinha Nerina, naquela reunião de praxe que você descarregou a Nerina e o seu bolso e saiu carregada. Você não queria, eu sei, era caríssimo, mas agora com a maxi, uma ninharia. É verdade que um potinho não dá pra nada, claro, é o teste. Vai adorar. E depois é só comprar mais. Sinta-se uma vez na vida a Jane Powel, não esqueça do laçarote cor-de-rosa, mate as saudades da matinée à tarde, queridinha. Muito fácil, massa corrida. Não deu pro gasto? Muita gordura na copa e até nos quartos? Seja prática e use o Limpol, sabão, amoníaco, potassa. As mãos? Já esqueceu do creminho para as mãos da Nerina que tem um cheiro de rato morto? Então, use à noite, ninguém vai perceber. Quando você for dormir, a sua cara-metade já estará roncando. É a oportunidade do retorno do Realc-Glô que lhe custaram uma semana de aulas! Não choramingue. Suas mãos de fada merecem mais, ficarão sedosas como uma rosa.  Arregace as mangas e mande mais Bombril aos quilos com esponja, Perfex e etc. Tá bom, tá certo, pegue aquela mangueira de quinhentos metros com cem toneladas e mande brasa, digo, água. Sinta-se o bombeiro, tão dignificante!
Mas que reboliço! É quase hora do jantar e nada de requentar almoço nas férias. Que horror, afinal agora você tem tempo até pra você. Então, você rodeada de sorrisos? Surpresa, prato novo, sobremesa. O chão está uma lagoa. E daí? Cabecinha de vento! É só pegar o saco e de quatro vá torcendo no balde. Uma tortura reconheço. Está arfando? Respire fundo, assopre, minha Super Woman. Viu? Secou tudo. E até você. Não queria emagrecer?
O seu sobrado é todo acarpetado? Mas sujo não dá, né nega?
Deixe para amanhã. Levante-se bem cedo. Antes de tomar banho olhe-se no espelho. Faça o seu desenho. Tire uma cópia com papel carbono. Aproveite a ideia para bolar a sua máscara para o próximo carnaval com previsões astrológicas de defesa para cenas greco-romanas da antiguidade tragi-clássica de teatro: original carnaval de 77 sem tréguas. Confie no 7 (sete) para pintá-lo à vontade com cara de pau. É o ano da chance. Ninguém acreditará que a colombina virou Messalina, que a Julieta virou Lucrécia. Você será só Amélia. Portanto, acorde, Martírios! Onde você deixou os tapetes? No sol. Mas já olhou o céu? Trovoada de verão. Rápido. Cada gota  enche um balde. Estão mais pesados? Claro, que ingenuidade! Você pensou que suas fracas batidinhas iriam livrá-los de todo o potencial de lixo, pulgas, mosquitos e detritos orgânicos contaminados de coliformes fecais? E as cobras, gataria e cachorrada que andaram por aqui para contaminar tudo enquanto você dava aulas? Mas não seja burra. É a lei da gravidade. Não é nada grave. Não vai querer discutí-la. E muita coisa você atraiu com a sua cara melada e irreconhecível após aquela aplicação de rinsage cinza-prateada nos seus cabelos, meio quilo do produto voltou para o seu devido lugar em mingauzinho. Mas não seja ingrata. Não faça tempestade em copo d’água. Apenas oito tapetes úmidos e menos imundos. Um pingo de peso. Mas valeu a pena, voltaram diferentes, esfumados, maquiados, estampados, de nuances derivadas, manchados como você queria, artista. Moderninhos, viu? Surrealistas finalmente. Vão fazer sucesso com as jovens visitas de rancheiras desbotadas. Afinal, logo logo a mamata das férias termina.



III – Férias Reais:

Sorridente entrou a professora na escola, toda de branco. Um anjo. Cumprimentou as colegas. Adorou sua turma, não reclamou nada.  Na sala de aula, não fez a chamada. Todos em silêncio de expectativa. Martírios abriu o jornal do dia, mandou a turma fazer cópia da última lição. Finalmente de férias, deu um grande suspiro de alívio como este continho do vigário que agora termina e volta ao início logo, logo porque é cíclico, infelizmente...

Marlene Vieira Perez - MPerez
(Original da década 70, adaptado em 24/09/13)